domingo, 19 de setembro de 2010

Os 10 melhores filmes de temas judaicos

Todas as listas, a propósito de quaisquer assuntos, nas quais se pretenda apontar os dez melhores de algum setor, são passíveis de contestações. É simplesmente impossível obter unanimidade ou consenso. O mesmo se aplica a esta lista, destinada a apontar os dez melhores filmes com temática judaica, realizados desde o advento do cinema falado.
A seleção aqui apresentada não corresponde necessariamente ao meu gosto pessoal. Elaborei uma longa lista com filmes de contexto judaico e preocupei-me em destacar aqueles que transcenderam, foram importantes por diferentes motivos na época de suas realizações e, desde então, vêm tocando a mente e o coração das pessoas.
Neste sentido, um filme emblemático é "O Grande Ditador " (The Great Dictator), de Charles Chaplin, que, a rigor, só tem como referência judaica a circunstância dos protagonistas serem judeus. Entretanto, Chaplin foi o primeiro grande produtor cinematográfico a denunciar com as armas do humor, antes ainda do início da Segunda Guerra, a perseguição aos judeus na Alemanha nazista e a ameaça que Hitler representava para o mundo.
No tocante à luta pela criação do Estado de Israel, há três filmes com conteúdo significativo: "Adaga no Deserto" (Sword in the Desert), "O Malabarista" (The Juggler) e À Sombra de um Gigante (Cast a Giant Shadow). Os três juntos, porém, não chegam a alcançar a dimensão de "Exodus". O primeiro, que aborda a imigração ilegal para a antiga Palestina, é pioneiro em matéria de endosso de Hollywood à causa sionista, tendo sido lançado em 1949, apenas um ano depois da independência israelense. O segundo, de 1953, filmado em Israel mesmo, conta a história de um refugiado do Holocausto, vivido por Kirk Douglas, que não consegue se adaptar às novas e precárias condições de vida do estado judeu. O terceiro, de 1966, conta a história verdadeira do coronel do exército americano, David Marcus (novamente Kirk Douglas), que lutou como voluntário na Guerra de Independência de Israel e foi um dos principais responsáveis pela vitória na batalha pela abertura da chamada "Burma Road", que rompeu o cerco imposto pelos jordanianos à cidade de Jerusalém. O coronel Marcus foi morto, por acidente, por um sentinela judeu quando, à noite, não soube responder em hebraico a uma senha que lhe estava sendo pedida.
Além da lista dos dez mais, vale destacar as inúmeras e divertidas menções judaicas existentes nos filmes de Woody Allen (principalmente uma cena antológica em Broadway, Danny Rose que mostra velhos atores e empresários judeus reunidos na mesa de uma delicatessen). O universo chassídico revelado em "O Eleito" (The Chosen). Os índios que falam ídiche em "Banzé no Oeste" (Blazing Saddles), de Mel Brooks. A pungente Madame Rosa interpretada por Simone Signoret. A imponência de Charlton Heston como Moisés, em "Os Dez Mandamentos" (The Ten Commandments). A ingenuidade política dos aristocratas judeus italianos em "O Jardim dos Finzi-Contini". A adaptação para o cinema de Focus , o único romance de Arthur Miller, no qual o principal personagem é humilhado e perseguido por ter a aparência de judeu, embora não fosse. A impetuosidade do personagem Duddy Kravitz, vivido por Richard Dreyfus, na transposição para a tela de um romance do canadense Mordecai Ricler. O belo trabalho de Rod Steiger em "O Homem do Prego" (The Pawnbroker), dirigido pelo judeu Sidney Lumet, o primeiro filme americano de ficção a encenar os horrores de um campo de concentração. A luta pela sobrevivência e o comportamento contraditório de um jovem judeu, durante o Holocausto, no filme alemão Europa, Europa. A excepcional atuação de Zero Mostel em "Testa de Ferro por Acaso" (The Front), filme sobre a época do macartismo, que perseguiu atores, diretores, roteiristas e outros profissionais do cinema e do teatro americano, resultando numa lista negra de supostos comunistas, a maioria judeus. O próprio Mostel, aliás, esteve nessa lista e, quando foi chamado para depor perante o comitê do senado americano, perguntaram-lhe para qual estúdio trabalhava e ele respondeu: "19th Century Fox".
Com referência ao processo Dreyfus, que denuncia o anti-semitismo na França já no século 19, há dois filmes expressivos: "Eu Acuso!" (The Life of Emile Zola), de 1937, com Paul Muni, ator consagrado no teatro ídiche de Nova York, no papel central, e "A Ilha do Diabo" (I Accuse), de 1958, com José Ferrer. Ainda em matéria de anti-semitismo, é muito importante o filme "O Homem de Kiev" (The Fixer), de 1968, baseado num romance do americano Bernard Malamud, que narra a história espantosa e verdadeira do judeu Mendel Beiliss, acusado, em 1912, de assassinar uma criança cristã para extrair seu sangue para um ritual secreto. Beiliss foi absolvido e alguns historiadores associam este fato ao início da derrocada do czarismo na Rússia.
Ficou fora da lista a excelente minissérie "Holocausto" (Holocaust), por se tratar de uma produção para a televisão (475 minutos de duração), que foi exibida dublada no Brasil, prejudicando a avaliação da qualidade de interpretação de um elenco de peso. A mesma questão da dublagem se aplica a outras boas realizações para a televisão como Rebelião em "Sobibor" (Revolt in Sobibor), "A Casa da Rua Garibaldi" (The House on Garibaldi Street), que conta a captura do criminoso de guerra Adolf Eichmann, em Buenos Aires, a minissérie com 880 minutos "Os Ventos da Guerra" (The Winds of War), que contém um dramático segmento sobre o campo de concentração de Theresienstadt, "A Amarga Sinfonia de Auschwitz" (Playing for Time), roteiro de Arthur Miller, e "Vidros Quebrados" (Broken Glass), também de Miller (ainda não exibido no Brasil e, se for, que não seja dublado), cuja ação gira em torno da infame "Noite dos Cristais". Feitas essas ressalvas, a par de muitas outras que decerto ficaram faltando, segue a lista dos dez mais, em ordem alfabética, para que a colocação não signifique prevalência.


Adeus, Meninos
O diretor Louis Malle assistiu, quando criança, a um episódio dramático ocorrido em sua escola primária: a Gestapo prendeu um padre católico e três meninos judeus por ele acobertados. Foi esta a gênese de seu filme, de 1987, que retrata o drama vivido pelos judeus durante a ocupação nazista da França. De certa maneira, há no filme uma conotação autobiográfica na medida em que Malle imagina como teria sido sua amizade com um daqueles colegas judeus que viria a ser deportado para Auschwitz. Em "Adeus, Meninos" (Au Revoir, les Enfants) tudo é visto através da inocência da infância, uma condição que vai sendo perdida enquanto se avoluma a tragédia da guerra.


A Lista de Schindler
Além deste filme ser baseado numa história rigorosamente verdadeira, Schindler's List é do ponto de vista artístico o melhor filme até hoje realizado sobre o Holocausto. A par das cenas de atrocidades e assassinatos cometidos pelos nazistas, a sabedoria do diretor Steven Spielberg foi limitar-se a descrever a trajetória de Oskar Schindler (Liam Neeson), sem aprofundar-se em sua alma ou motivações.
Schindler, na vida real, era um industrial alemão corrupto, devasso, trapaceiro, jogador viciado, aproveitador da guerra e membro do partido nazista. As circunstâncias levaram-no a ser o proprietário de uma metalúrgica na Cracóvia onde empregou mais de mil prisioneiros judeus. Ganhou muito dinheiro com esse trabalho escravo e acabou renunciando a tudo para salvá-los de um campo de extermínio, através da elaboração de uma lista apresentada às autoridades nazistas com o argumento de que se tratava de gente indispensável para o funcionamento da fábrica.


A Luz É Para Todos


Na década de 40, embora os maiores estúdios de Hollywood pertencessem a judeus, estes se colocavam à margem de qualquer tema referente a eles ou ao judaísmo, por conta do enorme esforço que faziam para erradicar sua imagem de imigrantes e serem aceitos pela sociedade americana. Entretanto, depois da guerra, as primeiras informações referentes ao Holocausto começaram a mudar seu comportamento, mas foi Darryl F. Zanuck, de religião metodista, conservador e republicano convicto, diretor de produção da Fox, quem decidiu abordar com inusitada coragem, em 1947, o tema do anti-semitismo existente nos Estados Unidos. O roteiro do filme (Gentleman's Agreement, título original), baseado num romance de Laura Z. Hobson, coube ao judeu Moss Hart e ao não-judeu Elia Kazan, que já despontava como um dos maiores nomes de Hollywood, a direção.


Exodus


Baseado no episódio verdadeiro do navio de refugiados de nome Exodus, barrado pelos mandatários ao aproximar-se da costa da antiga Palestina, o filme narra os eventos cruciais ocorridos em 1947 que culminaram com a criação do Estado de Israel. Até hoje, nenhuma outra produção do cinema abordou este tema com tanta acuidade, tendo inclusive criado dois importantes personagens inspirados em Menachem Begin (David Opatoshu) e David Ben Gurion (Lee J. Cobb). O primeiro, promovendo atos terroristas contra os ingleses, o segundo, buscando uma solução diplomática para a antiga Palestina. Além disso, o filme também aborda o problema entre árabes e judeus, mostrando que ambos são vítimas de um conflito e animosidade que, em princípio, não desejavam.


O Cantor de Jazz


Inspirada num conto literário depois adaptado para o teatro, com sucesso, a fita conta a história do jovem Jacob Rabinowitz (Al Jolson), filho de um rabino, que muda o nome para Jack Robin e se torna um astro de sucesso na Broadway. Na noite da estréia de um novo espetáculo, que coincide com o Yom Kipur, Jack decide deixar o teatro e ir para a sinagoga ocupar o lugar do pai moribundo, com quem havia cortado relações. As cenas seguintes, configuradas num lacrimoso dramalhão, mostram o rapaz cantando o Kol Nidrei enquanto o pai está morrendo. Na noite seguinte, ele volta para o teatro e arrebata o público cantando My Mammy, a marca registrada do grande Al Jolson, e sendo aplaudido por sua estereotipada "ídiche mame" na platéia.
O filme estreou em Nova York no dia 6 de outubro de 1927, véspera do Yom Kipur, arrecadou portentosas bilheterias, mas os irmãos Warner não puderam comparecer. Um deles, Sam, tinha morrido um dia antes. O Cantor do Jazz teve suas refilmagens. Uma, em 1953, medíocre. Outra, em 1980, com o cantor Neil Diamond como Jack e na qual Laurence Olivier interpreta o rabino, de forma soberba.


O Diário de Anne Frank


Este filme, de 1959, foi o primeiro de Hollywood a abordar diretamente o Holocausto. A partir do livro da jovem holandesa, também adaptado para o teatro, emocionou e continua comovendo milhões de pessoas em todo o mundo, abrangendo até hoje mais de 30 milhões de exemplares, em 55 idiomas.
O Diário de Anne Frank, realizado em preto e branco, ganhou seis prêmios da Academia, inclusive o de melhor atriz coadjuvante, para a atriz judia Shelley Winters. Mesmo assim, sofreu inúmeras restrições por falta de fidelidade ao Diário, tentando fazer prevalecer um sentimento universal de sofrimento sobre a tragédia específica a que os judeus estavam sendo submetidos, já que o filme não alude aos extermínios nos campos de concentração. De qualquer maneira, O Diário de Anne Frank resultou num filme importante, ao tempo de sua realização, por ter aberto uma porta que permanecia fechada por quase quinze anos.


O Grande Ditador


Os magnatas judeus dos estúdios de Hollywood permaneceram em silêncio quando os judeus começaram a ser perseguidos pelos nazistas, após a ascensão de Hitler ao poder. O primeiro homem de cinema a denunciar o que estava acontecendo na Alemanha foi o não-judeu Charles Chaplin, que muita gente pensava que fosse, mesmo porque ele jamais disse que não era.
Em sua autobiografia, Charles Chaplin escreveu que se ele pudesse ter imaginado que o nazismo viria a atingir tamanho grau de crueldade homicida, não teria feito uma sátira sobre Hitler, mas o teria atacado de forma frontal. O final do filme é condizente com o tempo em que foi realizado. Num grande comício, igual aos promovidos por Hitler, o barbeiro judeu acaba assumindo o lugar do ditador e faz um discurso pacifista, um tanto melodramático, bem ao estilo de Chaplin.


Shoah


O filme contém depoimentos de judeus que sobreviveram aos campos de extermínio, de pessoas, sobretudo poloneses, que moravam nas proximidades dos campos, sabiam o que estava acontecendo, ouviam os gritos das vítimas, e permaneceram indiferentes a tudo e, surpreendentemente, de oficiais da SS que serviram nos campos e concordaram em falar perante a câmera, enquanto outros foram filmados com uma câmera oculta enquanto falavam com o entrevistador.


Um Violinista no Telhado


Além do sucesso no cinema, "Um Violinista no Telhado", concebido a partir de um conto do escritor ídiche Sholem Aleichem, teve excepcional carreira na Broadway. Estreou em 1964 e saiu de cartaz em 1971, com um total de 3.242 representações e mais de 20 milhões de dólares de arrecadação na bilheteria. Além dessa montagem, muitas outras se sucederam, inclusive em dezesseis idiomas diferentes, em 32 países. Há um destaque especial para a remontagem de 1994, quando foi celebrado o trigésimo aniversário da produção, tendo Topol no principal papel, numa excursão que percorreu de costa a costa os Estados Unidos.


Yentl


Assim como "Um Violinista no Telhado", "Yentl ", produzido, dirigido e protagonizado por Barbra Streisand, também corresponde a uma visão cândida, ingênua e apaixonada da vida judaica na shtetl. O filme se baseia num conto do escritor Isaac Bashevis Singer, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, e conta a história de uma jovem que, devotada à religião e seus ritos, se faz passar por rapaz, caso contrário não poderia freqüentar a yeshivá, a escola voltada para os estudos da Torá e do Talmud.
O filme tem, ainda, a particularidade de ser o único que conta com uma mulher no papel central; uma mulher que, a rigor, é amorosamente feminina ao mesmo tempo em que é feminista por intuição. Barbra Streisand conta que foi longo o caminho que percorreu até chegar à realização de Yentl e até reincorporar o judaísmo em sua vida. O ponto inicial foi o bar mitzvá de seu filho Jason (com o ator Elliot Gould), em 1980.
Zevi Ghivelder é escritor e jornalista

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